1 April 2009

Era uma vez... uma verdade mal contada

Era uma vez, num universo em guerra, uma velha contava histórias aos seus netos.
- Meus meninos, já nada disto é novo para mim. - dizia ela sempre que ia começar a contar uma nova história.
Os meninos, muito atentos, ouviam-na em silêncio e faziam as perguntas esperando pela sua vez.
Era uma vez, uma história que ela contou, uma história que os meninos ouviram, uma história que ficou na História, uma história que continua.
«Há muitos anos, viviam num palácio no Norte, um príncipe e a sua prometida. A princesa tinha uma amiga inseparável a quem ela contava tudo. Um dia, porém, a princesa foi raptada por um príncipe do Sul. O príncipe do Norte não parecia muito incomodado pela falta da princesa, pensando que ela tinha saído numa das suas excursões de caridade. Por outro lado, dia após dia, o príncipe do Sul ia murmurando palavras doces ao ouvido da amiga da princesa, e ela ia fazendo tudo o que lhe era pedido. A amiga foi ficando cada vez mais presa na rede de mentiras que o príncipe do Sul tecia, afastando-se cada vez mais da realidade, não notando a falta da princesa. Todos os dias passavam como se nada tivesse acontecido.»
- Como é que ninguém notou que a princesa foi raptada? - os meninos, muito impacientes, ficaram curiosos.
- O príncipe do Sul, era muito subtil em tudo o que fazia, por isso, era muito difícil distinguir o que estava diferente e o que não estava. - respondeu a velha.
«Certa vez, a confidente da princesa acordou e não encontrou nem a princesa nem o príncipe de quem ouvia as palavras doces, sentiu como se tivesse perdido algo de precioso. Saiu de rompante do palácio e encontrou um pequeno gancho partido que pertencera à princesa na porta das traseiras. Finalmente, a confidente apercebeu-se de que algo de mal acontecera à princesa. Quando ela comunicou o acontecimento ao príncipe, este ficou confuso, pois não entendia como ninguém se tinha apercebido do sucedido. Olhando à sua volta, como se acordasse de um longo sonho, reparou como já nada permanecia igual.
Assim que o príncipe do Norte soube do rapto da princesa, decidiu comandar o seu exército e marchar ao encontro do culpado. No entanto, por mais que tentasse não o conseguia identificar. O tempo passou sem que ninguém desse conta. Quando foram encontrados pistas de que o príncipe do Sul era o culpado, a confidente da princesa não podia acreditar que um príncipe tão gentil e atencioso pudesse ser o vilão. Tempo era aquilo de que não dispunham, mas mesmo assim, a amiga da princesa levou algum até aceitar os factos. Canalizou todo o seu esforço para encontrar o príncipe do Sul e a princesa na tentativa de libertar a sua fúria. Apesar de tudo, era difícil localizar o príncipe do Sul. Enquanto o príncipe se concentrava a encontrar o esconderijo do príncipe do Sul e da princesa raptada, pormenores passavam-lhe ao lado. Um certo príncipe do Ocidente aproveitou a distracção do príncipe do Norte para seduzir a confidente da princesa, que na sua frustração contra o príncipe do Sul não tinha reparado que estava a cometer o mesmo erro.
Um dia, o príncipe do Norte anunciou a descoberta do paradeiro do príncipe do Sul. Para fazer justiça, foi-lhe proposto a realização de um duelo para determinar aquele que iria ficar com a princesa. O príncipe do Norte, frontal como era aceitou de bom grado. A confidente da princesa ficou muito contente e apressou-se a contar o sucedido ao príncipe do Ocidente. Cauteloso como era, o príncipe do Ocidente revelou que iria retirar-se para o seu reino durante algum tempo, evitando conflitos.
Na manhã em que se seguiu, a confidente da princesa alimentou o seu sentimento de ódio e frustração contra o príncipe do Sul fechando-se no seu quarto imaginando-se a conversar com a princesa novamente, como nos velhos tempos. Quando a hora do duelo chegou, a rapariga saiu do seu quarto com um passo decidido, determinada a humilhar o príncipe do Sul, quando este perdesse o duelo.
O duelo durou pouco tempo. A amiga da princesa, que sempre assumira que o príncipe do Norte iria ganhar, sofreu um desgosto enorme, pois o príncipe não só fora derrotado com facilidade, como ainda fora humilhado e afugentado para fora do seu próprio território. À saída da arena, o príncipe do Sul deparou-se com a rapariga que tentara seduzir para manter o rapto da princesa em segredo. A confidente da princesa sentiu a sua a raiva e revolta a vir à superfície. O príncipe do Sul deve ter sentido o mesmo pois apressou-se a tentar acalmá-la com as suas palavras.
- Querida, não posso consentir que me tenhas como inimigo. – disse docemente.
- Porque não? Raptaste a minha melhor amiga! – queixou-se a donzela.
- Sejamos razoáveis. Eu não a raptei, ela é que quis vir comigo a todo o custo. Doce, se ela é a tua melhor amiga, devias saber melhor que ninguém que ela queria livrar-se daquele senhor orgulhos e convencido.
Tentando encaixar todas as acções da princesa na teoria do seu príncipe, levada pela subtileza das mentiras do príncipe do Sul, a donzela voltou a ficar presa da rede. Mais tarde, a princesa e a sua confidente foram reunidas. A suposta vítima do rapto ficou agradavelmente surpreendida.
- Estou tão feliz por te ver! - disse a princesa, apertando a sua amiga num abraço.
- Fico contente por te encontrar sã e salva. - respondeu a amiga entre lágrimas e risos.
As duas donzelas, presas na rede do príncipe do Sul sem se darem conta, viviam os seus dias numa falsa felicidade. A princesa mantinha o seu sorriso porque não queria que a sua amiga pensasse que não estava feliz por a ver, e a sua amiga, por sua vez, mostrava-se sempre sorridente tentando não estragar a aparente alegria da princesa. Apesar de falsa, a felicidade também não durou muito. O príncipe do Ocidente, com inveja do príncipe do Sul por ter as duas donzelas mais belas do universo, entrou sorrateiramente no palácio do príncipe do Sul e levou consigo aquela que lhe pareceu mais manipulável, a confidente da princesa.»
- Então, os príncipes do Sul e do Ocidente são maus? - perguntaram os meninos na sua santa inocência.
- Meus meninos, e o que é ser mau? - respondeu a velha, pacientemente. - Paremos por hoje. Já estou cansada.
A velha parou de contar naquele dia. O que não estava previsto era que a velha nunca mais pôde continuar a contar a história aos meninos que esperavam ansiosamente para ouvir o final. A velha fora presa por difamação de membros do estado.
Pergunto-me qual era o final da história que a velha tinha para contar. Pergunto-me se o final era igual ao final da história que a velha ama sempre me contava.
«Com o desaparecimento da sua amiga, a princesa encontrou em si uma grande vontade de fugir ao controlo do príncipe do Sul. A fuga era extremamente difícil, no entanto, a princesa não desistiu nunca e após numerosas tentativas, finalmente conseguiu livrar-se das teias do príncipe do Sul. Apesar da fuga ter tido sucesso, havia mais um problema: era ainda mais difícil fugir às garras do príncipe do Ocidente.
Com este evento, começou uma guerra sem fim entre os príncipes do Ocidente e do Sul para competir pela posse das donzelas. Por vezes, ambas estavam no palácio do príncipe do Sul ou do Ocidente, outras vezes estava uma em cada palácio.
- Nós não somos troféus para se conquistar. - suspirou a princesa.
- Vamos conseguir sair daqui. - garantiu a amiga.
Por mera sorte, a princesa conseguiu libertar-se dos príncipes em guerra, enquanto estes se concentravam na disputa pela sua amiga. Perdida, numa terra deserta, encontrou o seu prometido, o príncipe do Norte que tinha sido escorraçado para fora do seu próprio reino. Juntos, juraram ajudar a libertar a amiga, presa nas intrigas dos outros dois príncipes.
Sabendo do reencontro entre a princesa e o príncipe do Norte, adivinhando ao mesmo tempo o que estaria para vir, os príncipes do Ocidente e do Sul deixaram de lado as suas intrigas e uniram-se para evitar que a amiga da princesa fosse salva, bem como capturar de novo a princesa.
Por inúmeras vezes a princesa foi capturada, e o príncipe do Norte subjugado, mas, conseguiram sempre ultrapassar as dificuldades. Poucas foram as vezes que conseguiram recuperar a confidente da princesa. Dessa poucas vezes, em todas, a rapariga voltou a ser encarcerada. Apesar de tudo, o príncipe do Norte e a sua prometida nunca desistiram. A esperança era a última a morrer.
Por longos anos, a guerra continuou. Por outros longos anos irá continuar.»
Foi este o final da história que a ama me contou.
Perguntei-me sobre o que não era de novo na história. Finalmente, vi que apenas a forma de contar era diferente, dissimulada.
Todas as personagens têm nome, nomes conhecidos de toda a gente.
O príncipe do Norte seria o Bem, a princesa sua prometida, a Verdade. A melhor amiga, seria a Justiça. Os príncipes do Sul e do Ocidente seriam, respectivamente, o Poder e o Ouro.
Um dia, no longínquo futuro, haverá esperança de uma velha ama contar a mesma história com um final mais feliz?
Onde há luz, há sombra…

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